fuck



"Quando vires os teus olhos a verem-te,
quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu,
quando não conseguires distinguir-te de ti,
olha para o fundo dessa pessoa que és e imagina
o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti."

José Luís Peixoto, Antídoto
| foto de titdemon | deviantArt.com

os meus c's

O meu nome começa por C. Sou cansativa, carinhosa e caricata. Sou corajosa e covarde, consciente e raramente estou calada, por isso, sou também comunicativa. Normalmente estou certa mas sou ciumenta e casmurra, chata até ao cansaço. Tento ser cuidadosa e esgoto-me ao crítico. Doem-me as costas e devia ter ido correr. Gosto de ser cínica quando as chagas do coração falam por mim. Sou uma chorona nata mas quase sempre choro com classe. Acho-me entendida em cinema e gosto de pensar que sou culta. Sou uma criança em ponto não muito grande, craque a fazer asneiras, que gosta de casa e de colo. Amo cães e cavalos. Continuo a ser complicada e caprichosa. No corpo e na alma.
E posto isto, confesso que gosto dos meus C's se bem que há imensos que preferia que não existissem, por isso nem sequer os escrevo, para não ser mais catraia. Vou tomar um café. E a seguir quero um cigarro e uma cerveja!

todos os cigarros do mundo são para ti


'A seguir era como se fosse noite.'

Hoje, porque não é um hoje vulgar nem especial, hoje porque tenho borboletas no estômago e hoje que te amo, quero dizer-te que todos os cigarros do mundo são para ti. Hoje também te quero dizer que preciso muito de te agarrar para te poder sentir com muita força durante uma eternidade. E é tão somente o que quero. E daí minto porque quero mais coisas. Quero crescer amparada em ti e saber que há tanta coisa nas nossas vidas que se repete. E saber que quando leio um poema e me lembro de ti nada me impede de o repetir nas coisas que a nossa vida repete. Quero-te em mim porque do bom fizeste melhor e do hoje fazes aquela eternidade e eu tremo. 
As tuas mãos gostam de mim, eu continuo a viver num estado de apatia e frenesim, acordo vezes sem conta quando durmo sozinha, amo o teu sorriso e as calçadas do meu Porto têm o teu cheiro. Tenho-te em casa, no guarda-fatos, tenho-te junto à minha escova de dentes, tenho-te nos papéis e nas fotografias que vivemos. Tenho-te nos livros e nos meus braços. Gosto que gostes do que gosto e mesmo do que não gosto. Penso-te quando leio Al Berto, Nuno Júdice, Pablo Neruda e António Lobo Antunes. Hoje pensei em ti quando li Pedro Paixão porque ele dizia 'o que eu gostava era de poder falar na tua boca para que as tuas palavras fossem minhas e pudesse permanecer silencioso ao teu lado'. Também penso em ti quando leio Pedro Paixão. Quis chamar-te 'meu amor' no Outono e no Verão quis parar de tremer. E também descobri que já fizeste do Inverno a 'mais ardente das estações'.
Quero dizer-te que todos os cigarros do mundo são para ti. Quero escrever-te as mais lindas histórias e só me sai lamechice [daquela boa de escrever].



'Por ser tanto quanto somos, certo quando vemos, calmo quando queremos, hoje só por ser Outono vou'

o desejado


Cena XV
JORGE – Romeiro, romeiro! quem és tu?!
ROMEIRO (Apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal.) – Ninguém!

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto II


| foto de mirandela pedro| olhares.aeiou.pt|

happy we'll be


"It's far beyond the star
It's near beyond the moon
I know beyond a doubt
My heart will lead me there soon."
Frank Sinatra

|Foto de DDiArte | olhares.aeiou.pt |

la nuit à Paris


'Sharing different heartbeats in one night'

A torneira pingava as últimas gotas. Cobri o rosto da noite e confiei que a água tépida me conseguisse disfarçar o olhar. Olhei disfarçadamente o espelho e a torneira ainda pingava. Vi um sorriso. Aqueles sorrisos bonitos, aqueles que arrancam os pés do chão e nos sugam a alma. Aquele sorriso que, embora familiar, me era demasiado estranho. Olhei mais à frente e vi-te os olhos negros carregados de uma estranha e complacente ternura. Mas não arrancou um pé do chão. Depois implorei ao espelho que me desse imagens embaciadas pelo calor porque não gosto de definição. Então aí vi - um sorriso daqueles que nos sugam a alma, os olhos negros carregados, um sorriso a gritar saudade, uma ternura alheia. Foquei as luzes, os meus pés, a parede que senti estar mais carregada de tinta vermelha, as minhas mãos que se abriram e fecharam e estagnaram. Perdi-me em 2 metros quadrados e a minha alma foi sugada em ti. Depois olhei as tuas mãos, o teu sorriso familiar e estranho, os teus olhos e a ternura, as tuas mãos calejadas de saudade a aceitar um carinho perdido há tanto, vi-te nos olhos lamento e inspirei e a torneira ainda pingava.


Não vou voltar àquela noite de Paris.

|Foto de Vera da Veiga Ventura | olhares.aeiou.pt |