O que sou toda a gente é capaz de ver.
Mas o que ninguém é capaz de imaginar é até onde sou e como.

                                                                                                              Miguel Torga

Oxalá um dia eu to possa mostrar. 
quando olhares ao espelho e eu não te reconhecer.
oxalá que não demores.


porque sou maior que muito
e causo urticárias.



that home




onde as minhas pernas se cruzam nas tuas. onde há calor e me arrepio de frio.
onde gosto de chamar por nós.

merda.

Foto de Jackeline Chichetti in olhares aeiou.pt

"Ouve, merda, gosto de ti. Gosto da tonalidade dos teus olhos e das tuas mãos nos meus ombros quando fazemos amor, das pernas que se enrolam com força nas minhas e me atam, me prendem, me imobilizam, me impedem de sacudir as ancas, em avanços e recuos, à medida que me beliscas, e me mordes, e me insultas e acabas por morrer como um bicho pequeno, de súbito inocente, indefeso, sem rugas, numa cascatazinha de gemidos magoados, de cara transtornada como se fosses chorar." 

António Lobo Antunes, in "Auto dos Danados"

Íssimo

"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço... "
O Álvaro de Campos fala e sente por mim, hoje.

lullaby


Always and forever
Be with me
We'll have love aplenty
We'll have joys outnumbered
We'll share perfect moments
You and me

o teu riso


"Meu amor, nos momentos 
                 mais escuros solta
                                                                 o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
                      as pedras da rua,
                                                                  ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
                                                                               como uma espada fresca."

Pablo Neruda "O Teu Riso"

i wanna be your lover baby!



Não sei quem inventou as camas de solteiro, nem os copos só com uma escova de dentes. Nem sei porque é que preciso hoje de meias para manter os pés quentinhos.

" It takes two when it used to take only one".



Hoje, dir-te-ei o quanto gosto de poder partilhar o dia ao teu lado.
Não precisas fazer nada, eu solto o fogo de artifício.

parabéns!

Podia hoje desenhar as mais bonitas letras do alfabeto. Podia hoje saltar rir brincar com os pés bem altos e longe do chão. Gostava de bufar aquelas flores brancas que parecem ter pêlo e que nunca soube o nome. E podia também ver todas as formas dos animais nas nuvens. Podia inspirar com força.


Mas corre em mim aquilo que pode ser um estado depressivo, saudosismo, patetismo, dúvida [carradas delas] ou mais qualquer coisa que já havia ponderado. Acho que lhe chamo tristeza. Triste por tudo aquilo que pode ser e mais qualquer coisa que entretanto já ponderei.

olá, almofada

fuck



"Quando vires os teus olhos a verem-te,
quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu,
quando não conseguires distinguir-te de ti,
olha para o fundo dessa pessoa que és e imagina
o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti."

José Luís Peixoto, Antídoto
| foto de titdemon | deviantArt.com

os meus c's

O meu nome começa por C. Sou cansativa, carinhosa e caricata. Sou corajosa e covarde, consciente e raramente estou calada, por isso, sou também comunicativa. Normalmente estou certa mas sou ciumenta e casmurra, chata até ao cansaço. Tento ser cuidadosa e esgoto-me ao crítico. Doem-me as costas e devia ter ido correr. Gosto de ser cínica quando as chagas do coração falam por mim. Sou uma chorona nata mas quase sempre choro com classe. Acho-me entendida em cinema e gosto de pensar que sou culta. Sou uma criança em ponto não muito grande, craque a fazer asneiras, que gosta de casa e de colo. Amo cães e cavalos. Continuo a ser complicada e caprichosa. No corpo e na alma.
E posto isto, confesso que gosto dos meus C's se bem que há imensos que preferia que não existissem, por isso nem sequer os escrevo, para não ser mais catraia. Vou tomar um café. E a seguir quero um cigarro e uma cerveja!

todos os cigarros do mundo são para ti


'A seguir era como se fosse noite.'

Hoje, porque não é um hoje vulgar nem especial, hoje porque tenho borboletas no estômago e hoje que te amo, quero dizer-te que todos os cigarros do mundo são para ti. Hoje também te quero dizer que preciso muito de te agarrar para te poder sentir com muita força durante uma eternidade. E é tão somente o que quero. E daí minto porque quero mais coisas. Quero crescer amparada em ti e saber que há tanta coisa nas nossas vidas que se repete. E saber que quando leio um poema e me lembro de ti nada me impede de o repetir nas coisas que a nossa vida repete. Quero-te em mim porque do bom fizeste melhor e do hoje fazes aquela eternidade e eu tremo. 
As tuas mãos gostam de mim, eu continuo a viver num estado de apatia e frenesim, acordo vezes sem conta quando durmo sozinha, amo o teu sorriso e as calçadas do meu Porto têm o teu cheiro. Tenho-te em casa, no guarda-fatos, tenho-te junto à minha escova de dentes, tenho-te nos papéis e nas fotografias que vivemos. Tenho-te nos livros e nos meus braços. Gosto que gostes do que gosto e mesmo do que não gosto. Penso-te quando leio Al Berto, Nuno Júdice, Pablo Neruda e António Lobo Antunes. Hoje pensei em ti quando li Pedro Paixão porque ele dizia 'o que eu gostava era de poder falar na tua boca para que as tuas palavras fossem minhas e pudesse permanecer silencioso ao teu lado'. Também penso em ti quando leio Pedro Paixão. Quis chamar-te 'meu amor' no Outono e no Verão quis parar de tremer. E também descobri que já fizeste do Inverno a 'mais ardente das estações'.
Quero dizer-te que todos os cigarros do mundo são para ti. Quero escrever-te as mais lindas histórias e só me sai lamechice [daquela boa de escrever].



'Por ser tanto quanto somos, certo quando vemos, calmo quando queremos, hoje só por ser Outono vou'

o desejado


Cena XV
JORGE – Romeiro, romeiro! quem és tu?!
ROMEIRO (Apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal.) – Ninguém!

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto II


| foto de mirandela pedro| olhares.aeiou.pt|

happy we'll be


"It's far beyond the star
It's near beyond the moon
I know beyond a doubt
My heart will lead me there soon."
Frank Sinatra

|Foto de DDiArte | olhares.aeiou.pt |

la nuit à Paris


'Sharing different heartbeats in one night'

A torneira pingava as últimas gotas. Cobri o rosto da noite e confiei que a água tépida me conseguisse disfarçar o olhar. Olhei disfarçadamente o espelho e a torneira ainda pingava. Vi um sorriso. Aqueles sorrisos bonitos, aqueles que arrancam os pés do chão e nos sugam a alma. Aquele sorriso que, embora familiar, me era demasiado estranho. Olhei mais à frente e vi-te os olhos negros carregados de uma estranha e complacente ternura. Mas não arrancou um pé do chão. Depois implorei ao espelho que me desse imagens embaciadas pelo calor porque não gosto de definição. Então aí vi - um sorriso daqueles que nos sugam a alma, os olhos negros carregados, um sorriso a gritar saudade, uma ternura alheia. Foquei as luzes, os meus pés, a parede que senti estar mais carregada de tinta vermelha, as minhas mãos que se abriram e fecharam e estagnaram. Perdi-me em 2 metros quadrados e a minha alma foi sugada em ti. Depois olhei as tuas mãos, o teu sorriso familiar e estranho, os teus olhos e a ternura, as tuas mãos calejadas de saudade a aceitar um carinho perdido há tanto, vi-te nos olhos lamento e inspirei e a torneira ainda pingava.


Não vou voltar àquela noite de Paris.

|Foto de Vera da Veiga Ventura | olhares.aeiou.pt |